A resistência antimicrobiana constitui um dos maiores desafios da saúde pública no século XXI, sendo reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das principais ameaças à saúde global. O aumento da disseminação de bactérias multirresistentes compromete a eficácia dos tratamentos disponíveis, favorecendo a ocorrência de infecções de difícil manejo, prolongamento do tempo de internação, elevação dos custos hospitalares e aumento da morbimortalidade associada às infecções bacterianas.
Entre os diversos mecanismos de resistência descritos, a produção de ?-lactamases representa um dos mais importantes. Essas enzimas são capazes de hidrolisar antibióticos ?-lactâmicos, impedindo sua ação sobre a parede celular bacteriana. Dentre elas, destacam-se as carbapenemases, enzimas com capacidade de inativar carbapenêmicos, considerados antimicrobianos de última linha para o tratamento de infecções causadas por bacilos Gram-negativos multirresistentes. A presença dessas enzimas está frequentemente associada à resistência a múltiplas classes de antimicrobianos, limitando significativamente as opções terapêuticas disponíveis.
As carbapenemases são classificadas de acordo com a classificação molecular de Ambler, baseada na estrutura da enzima e em seu mecanismo catalítico. As principais carbapenemases de importância clínica pertencem às classes A, B e D:
Classe A: representada principalmente pela KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase), uma serino-carbapenemase amplamente disseminada em enterobactérias e considerada uma das principais responsáveis pela resistência aos carbapenêmicos em âmbito hospitalar.
Classe B (metalo-?-lactamases): engloba enzimas dependentes de zinco para sua atividade catalítica, incluindo NDM (New Delhi metallo-?-lactamase), VIM (Verona Integron-encoded Metallo-?-lactamase) e IMP (Imipenemase). Essas enzimas apresentam elevado potencial de disseminação horizontal por meio de elementos genéticos móveis e são capazes de hidrolisar a maioria dos ?-lactâmicos disponíveis.
Classe D: representada principalmente pelas carbapenemases do grupo OXA-48-like, que possuem atividade hidrolítica variável contra carbapenêmicos e frequentemente apresentam perfis fenotípicos que dificultam sua detecção por métodos convencionais.
A carbapenemase KPC permanece como a enzima mais frequentemente associada a surtos hospitalares em diversos países, sobretudo em isolados de Klebsiella pneumoniae e outras enterobactérias. Por sua vez, a NDM destaca-se pelo elevado potencial de disseminação global e pela frequente associação a plasmídeos que carregam múltiplos determinantes de resistência, sua presença tem crescido de maneira notável no Brasil após o cenário da pandemia de COVID-19. As enzimas VIM e IMP, apesar de menos prevalentes possuem ampla distribuição geográfica e são frequentemente identificadas em Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter spp. e enterobactérias. Já as enzimas do tipo OXA-48-like apresentam crescente importância epidemiológica devido à sua rápida disseminação e à possibilidade de permanecerem subdetectadas em determinados perfis fenotípicos.
A imunocromatografia de fluxo lateral constitui uma metodologia rápida, sensível e altamente específica para a detecção de carbapenemases a partir de microrganismos previamente isolados em cultura. O método baseia-se na interação antígeno-anticorpo e permite a identificação das principais carbapenemases em poucos minutos, fornecendo informações valiosas para o manejo clínico do paciente e para a implementação precoce de medidas de controle epidemiológico.
O exame CARBFL possibilita a detecção simultânea das principais carbapenemases de relevância clínica e epidemiológica atualmente descritas: KPC, NDM, IMP, VIM e OXA-48.
O resultado será considerado positivo quando houver detecção de uma ou mais carbapenemases contempladas pelo teste.
A não detecção das carbapenemases pesquisadas será reportada como resultado negativo. Entretanto, esse resultado não exclui a possibilidade de resistência aos carbapenêmicos mediada por mecanismos não enzimáticos. Além disso, não se pode descartar a presença de carbapenemases raras, emergentes, variantes ou mutantes que não sejam reconhecidas pelo kit utilizado. A interpretação do resultado deve ser realizada em conjunto com o perfil fenotípico de sensibilidade antimicrobiana, os achados microbiológicos e o contexto clínico-epidemiológico do paciente.